Saturday, July 12, 2008

O Xá Ali Baba ou o Doutor Temaki... My huckleberry friend...

Se alguém tentar perceber as nossas conversas de fora, não vai perceber nada. Aninhamos a nossa cumplicidade dentro de um sentido de humor que oscila entre o cultural, o social e o absurdo total. Rimo-nos que nem perdidos dos disparates um do outro. Ele esquece-se. Eu lembro-o. Eu repito-me. Ele não se recorda. E quando damos por isso, estamos a rir pela quinquagésima vez daquela piada do Allallallallallon em frente da Embaixada dos Estados Unidos, ou a interpretar pela enésima vez o comentário “Ballack’foi golo”.

Alivia-me o peso que cai sobre os meus ombros quando me pergunta como vai o Xá Ali Baba. Só precisamos de dois e-mails para roubar todo o sentido à conversa, dois segundos para que a sanidade entre em colapso desenfreado. Ele diz que eu tenho uma obsessão pela simetria. Eu digo-lhe que ele está sempre com fome, com sono e que é trapalhão como não há igual. Somos conhecidos pela nossa pancada por temakis de salmão (sem queijo!). Troca os nomes de tudo. Chama Cornucópio ao Procópio e diz ao senhor simpático que lá trabalha que eu sou a maluquinha das pipocas (mentira!). Em vez de uma Conchanata clássica: baunilha, morango e nata!, acha por bem juntar numa mesma taça limão, café e manga, além, claro, do molho de morango que dá nome à casa! (ao menos, a sandes de frango e banana só a experimentou uma vez...) E ninguém faz melhor dueto que nós a interpretar Bohemian Rhapsody, versão Queen: «I see a little silhouetto of a man, Scaramouche, scaramouche will you do the fandango… Bismillah! We will not let you go – let him go… Mama mia, mama mia, mama mia let me go…Beelzebub has a devil put aside for me, for me, for me… Galileo, Galileo, Galileo let me go…». Ah, e só mesmo ele para, depois de duas litradas de cerveja e meia dúzia de Würsts com batatas fritas, se aventurar na montanha russa da Frühlingsfest. E eu vou atrás... ("Audácia! Arrojo!" E tão má ideia...)

Passamos uma noite na Golegã (e eu até acho que ele tem medo de cavalos): ele faz do jogo de pólo um relato de futebol, pomos às voltas dentro de nós algodão doce, ginginha em copo de chocolate, farturas, cerveja, castanhas, pacotinho energy da Agel, e jantamos entremeada e entrecosto num “estabelecimento” que levaria qualquer 007 da ASAE ao rubro.

Baseamos a nossa amizade numa competitividade constante: o Milan dele dá cabo do meu Chelsea (normalmente…), a minha técnica tenista é superior à violência com que ele afasta a bolinha amarela, ele humilha-me no xadrez, eu ganho nas damas por um triz, também lhe ganhei uma vez ao berlinde, mas ele tem claramente melhor ouvido do que eu e adivinha sempre primeiro as músicas que a rádio toca, nos matraquilhos estamos even, no ping-pong, enfim, no ping-pong não comento. Ah… E ainda há os passeios de bicicleta. Eu deslizo entre as ruas e as pessoas. Ele desmonta para descer o passeio. Mas, verdade seja dita, em batalhas de bolas de neve, a pontaria afinada é a dele. Nas setas também (eu só tenho garganta!).

Em Estugarda apostávamos tudo em Beck’s Gold (logo depois de termos descoberto que a Weissbier tinha caldo Knorr lá dentro e que isso não nos agradava). Agora competimos só por competir. Só para nos rirmos um do outro.

Estugarda é um sítio que eu não escolheria para viver. Tem sítios bonitos, isso tem. Mas, fora o agradável centro histórico (o que sobreviveu), aquele mercado em jeito de clássico da Walt Disney, a Hauptbanhof (há qualquer coisa nas grandes estações de comboio que me enche os olhos...), a livraria da "Rua do Rei", a Calwer Eck Bräu e a praça em que o Schiller parece esperar o amigo Goethe, não se enquadra na arquitectura pitoresca que alimenta o meu imaginário. Mas foi lá que, de implicância a implicância, competitividade a competitividade, absurdo a absurdo, nos conhecemos e nos tornámos naquilo que somos hoje: Bruno e Graça, eu e eu, ele e ele.

Em Estugarda, a mente brilhante que liderava o FanCamp resolveu um dia mandar o Bruno montar tendas. Esse dia tornou-se uma semana. Único rapaz entre duas ou três estagiárias, o trabalho pesado de carpintaria sobrou para ele (logo ele que tem tanto jeitinho de mãos…). Ao quarto dia, decido que o mundo está de pernas para o ar e vou montar tendas também: «Oh Graça, eu não quero que venhas!», «Bruno, deixa-me! Estou a marcar uma posição!» (os meus momentos de coragem são poucos – pensei, deixa-me aproveitá-los). E assim foi.

Passámos esse dia à chuva – aquela chuva miudinha a cair sobre nós todo-o-santo-dia...! Ao almoço alguém foi buscar uma pizza desengonçada, sensaborona, quase tão precária como a sala escolhida para a refeição. Água: só com gás e sem ser fresca. Discutimos e irritámo-nos um ao outro. Ele ensinou-me a manejar o berbequim (nem tudo foi em vão). Carregámos tábuas maiores do que nós para trás e para diante. Magoámo-nos porque os nossos mitarbeiters alemães não estavam familiarizados com o conceito “devagarinho”. Pregámos algumas tábuas (pobres das criaturas que iam dormir por ali!). E o dia chegou finalmente ao fim. Eu tinha marcado a minha posição (confesso, não com o melhor feitio do mundo…), mas tínhamos passado o dia na companhia um do outro.

Ao voltar para casa, a caminho do U-Bahn, sobre uma das pontes que atravessa o rio Neckar, e envoltos em toda a neura e cansaço de um dia para esquecer, comecei a trautear baixinho: «Eu perdi o Dó na minha viola… na minha viola eu perdi o Dó… Dormir é muito bom, é muito bom, dormir é muito bom, é muito bom…» E cheguei ao refrão. Quando dei por nós, estávamos os dois em ritmo e sintonia aos pulos no meio da rua «É bom camarada, é bom camarada, é bom, é bom, é bom!». E depois rimo-nos que nem dois parvos da dança improvisada que fizemos de uma cantiga infantil que faz agora parte da banda sonora da minha experiência suábica.

Depois continuámos o caminho até casa a suspirar e a queixar-nos da nossa sorte...

Hoje ele diz que não se lembra do episódio. Aparentemente, mexe com a sua obsessão pela masculinidade. Mas eu lembro-me bem. É das lembranças mais... bonitas que tenho daqueles seis meses.

«Com um brilhozinho nos olhos guardei um Amigo, que é coisa que vale milhões…»

8 Comments:

Blogger ana luís vieira said...

Uma amiga falou-me do teu blogue e já há algum tempo que saltito por aqui.
As memórias são constantemente assimétricas...
Gosto muito da forma como escreves.

5:40 PM  
Blogger Concha said...

Ah, percebi logo que só poderias estar a falar no Bruno :)

7:04 PM  
Blogger Inês said...

Grace Maria! Fiquei comovida com o teu texto... Se calhar, porque assisti de perto ao nascer da vossa cumplicidade, que é tão bonita e tão forte.
Bjs e boas férias, e muitos mergulhos nesse mar*

PS: Gosto muito muito de te ler também, escreves sempre com o coração!

3:01 PM  
Blogger Patrícia Paisana Martins said...

Assistimos bem atentas na primeira fila:
ao espreguiçar desse brilhozinho nos olhos...

aos sorrisos traquinas e torneios de carrinhos de brincar...

às trocas de cromos e guloseimas partilhadas...

ao alemão entusiasmado por entre rolinhos de salmão fedorento...

às rasteiras disfarçadas de bolas de neve...

às gigantes canecas brindadas num hino à amizade...

à turras e discussões como crianças felizes pela irmandade...

às novelas recriadas no melhor sotaque brasileiro/gracebrunês do mundo...

aos abraços de vitórias árduas na virtualidade dos campos de futebol da playstation...

às cantigas balbuciadas por entre gargalhadas sufocantes a meio das refeições...

ao sol brilhante que vos iluminou a pele e alma durante o fenómeno sagrado "fancamp"...

às bicicletas, livros, pacotes de gomas e sandes duvidosas compradas no entusiasmo da amizade...

às travessuras meticulosamente engendradas nos caminhos obscuros trilhados pela cidade...

às pinhas, aos schmits, aos ogres, às tochas a meio da noite e às tias estranhas que mexem a sopa, que vos fizeram rir em conjunto de uma forma genuína e especial...

...Felizmente, em muitas dessas alturas, saímos da primeira fila, e vivemos com vocês tudo isso.

brilhante texto de memórias gracie.
beijo enorme para ti da roomie

4:07 PM  
Anonymous Bruno said...

pois, numa coisa nao dá para competir, na escrita. Nós somos isso tudo, e num momento raro, admito... fiquei comovido... sempre que me der para subir uma montanha sem preparação nenhuma, já sei quem chamar. Enfim... sou um sortudo

1:23 AM  
Blogger Gracinha said...

Oh... Faltou contar a aventura naquela montanha "everéstica" de Salzburgo, Gaisberg. E só porque o Untersberg estava fora de alcance... E eu que queria tanto cantar "The hills are alive" no Untersberg... E tu também Herr Tubarão, tenho a certeza que deixarias o meu Captain Von Trapp corado...! Tive mesmo que me contentar com a nossa condição de alpinistas amadores (água?! para quê?!)nos 900 metros de Gaisberg e olhar para o céu para me certificar de que aquele oásis de würsts com batatas fritas e coca-cola era mesmo verdadeiro... Ai, a "imensidão do infinito"...

1:34 AM  
Blogger sonia barroca moreira said...

pois que a mana sonik só leu este belo texto agora...já à algum tempo que a mana agnes me tinha dito para o ler, mas o amigo alemão "o alzeihmer" as vezes não ajuda.hehe.
gostei muito muitoooooo!!
só falta aquele episódio em que se tornaram ninjas (com ajuda das ninjas patusca e sonika) debaixo de um túnel de betão com graffiti's alemães que ia dar a uma localidade estranha que nunca mais queria ser encontrada, porque a palhaçada era tanta que até da possivel fome e do coitado do Thomas nos iamos esquecendo...(ou se calhar não falta, mas foi um dos episódios de palhaçada!!)
E esse projecto literário que tinhas falado?? quero fazer as ilustrações. Não está esquecido certo??

(desculpa qualquer erro ortográfico...)

beijo grande

9:49 PM  
Anonymous Anonymous said...

Pois se para o grupo que conhece a trama é fácil gostar, imagino o que não será bom saber que se lê tudo de dentro para fora. Esta é a escrita que espero ver convertida numa publicação para comprar. Um tal Seth Godin que bloga marketing diz que o segredo é criar primeiro uma Tribo. Eu, faço parte da sua. Uma troca de olhares e palavras pendente. Uns livros em stand by e a vida corre, corre, sem darmos pelo que de importante vamos adiando. Vale uma escrita que regista encontros e cresce à medida que vida corre, corre , corre. Beijinhos.Edite

9:35 AM  

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